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Waldemar Gonçalves | Natalino Tedesco | Arthur Félix | Ary Dáu | Homenagem ao 50o. Aniversário de Taboão
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Arthur Félix, o cego que enxergava longe, partiu


Arthur no gabinete de presidente da CMTS, pente no bolso, apresentação pessoal sempre impecável

Arthur (1918 - 2010) era um ‘boa-praça’. Um sujeito que gostaríamos, boa parte de nós, de ter como vizinho, patrão, amigo, motorista de praça, vereador da cidade ou simplesmente companheiro de batepapo.

Quando o visitei, em 2008, na R. dos Miosótis no Parque Pinheiros, fiquei surpreso com a faixa que ele pendurou na marquise e na qual se lia enfaticamente ‘Arthur Félix agradece a Deus os seus 90 anos’. Gesto de afirmação de um cego em que a cidade se recusava a ver um emancipador da maior e mais corajosa estirpe.

Perdeu a visão aos poucos em consequência do diabetes e sêo Natalino Tedesco conta que ouvia suas sensíveis descrições desse lento declínio, o sol se apagando aos poucos e sendo o último a sumir.

Eu tive o privilégio de ouvir a história do tempo dos pioneiros nas palavras de dois heróis da emancipação e do desenvolvimento de Taboão da Serra, Waldemar Gonçalves, cujas memórias escrevi, ele e eu sem nenhuma ajuda de ‘amigos’, e de Arthur Félix que se considerava um homem realizado por, começando na profissão de lixeiro, ter evoluído até trocar correspondência com o presidente Juscelino, este inaugurando Brasília lá no planalto central e o pioneiro emancipando Taboão aqui na Serra.


Como presidente da CMTS, Arthur ouve atentamente as palavras de Ary Dáu, prefeito da cidade, em segundo plano, eu, jovem executivo

Quando trabalhei como escriturário e depois diretor da secretaria da Câmara, estive sob as ordens do Arthur, no seu mandato de presidente. Meu antecessor, Ademir Saporito, que o Arthur chamava de ‘Virgilão’ porque filho de sêo Virgílio, pioneiro do bairro do mesmo nome, eu não me julgava à altura para ser diretor. Foi o Arthur que, com sua argumentação clara e franca, me fez ver que tinha plena condição para ocupar a função e foi o que fiz, creio que com sucesso, por cerca de quatro anos ainda.

Na época o Waldemar (grande e particular amigo do Arthur), já correspondente do Estadão e editor de uma série de jornais na região, sabendo que eu desenhava bem (estava fazendo publicidade na ESPM), me pediu um logotipo para a Associação Taboanense de Futebol, eu fiz, ele gostou e inclusive publicou no seu primeiro livro, o que me fez presente também no livro ‘Taboão da Serra Sua História Sua Gente’, o marco insuperado da sua obra de preservação dos fatos e das fotos das nossas vidas tanto pré como pós-emancipação.

São inúmeras as histórias que o Arthur contava com vivacidade, lucidez e bom humor. Tinha um faro para as ‘brigas de pau de dois bicos’* e os ‘panos quentes’ da política e, mesmo após perder a visão, era agradável ouvi-lo opinar sobre a ‘conjuntura’ política atual, seus meandros e arapucas. Uma vez escrevi aqui no Taboão On Line (www.taboaoonline.com.br) que ele cego enxergava muito melhor do que muito político de visão sadia.


Em visita à Cinpal, ouvindo as explicações de seu diretor. Era visita oficial, onde se veem Walter Belisqui e o tenente Durval Borges de Oliveira, jornalista do influente 'A Voz de São Paulo' e pessoa que participou ativamente dos primórdios de nossa história (hoje, como muitos outros, totalmente esquecido)

Ele tinha um amigo que ia com frequência à sua casa ler notícias da cidade que saiam nos jornais impressos e na internet. Num desses dias, o tal amigo leu pra ele o texto e ele e, dias depois, me perguntou – Sudaia, tem um jornalista que escreveu sobre a minha ‘astuta’ cegueira, sabe quem possa ser? – Foi este amigo aqui, o Sudaia, quem mais poderia ser, um dos poucos a se dedicar ao estudo do pensamento, cultura e arte dos legítimos pioneiros da cidade, modéstia inclusa. E ele dava aquela risada contida, pouco mais do que um sorriso, marota.

– Salamargo. O escritor português que morreu esta semana. Ele se mudou de Portugal porque teve lá uns problemas. Samalargo? Como se pronuncia, amigo Sudaia? – É Saramago, ele mudou de sua terra natal porque o parlamento lá deles estava pensando em proibir o livro dele ‘O Evangelho Segundo Saramago’... – Censurar o livro? – É, Arthur, é isso aí. Ficou pensando um pouco, ele ouvia sempre os noticiários de TV, ouvia a irradiação dos jogos da Copa, estava sempre bem informado e interessado no que se passava no mundo. – Censura desse jeito é uma lástima, não se pode mesmo concordar, meu amigo. Sara...mago, Saramago!


Arthur e sua esposa Evangelina foram abençoados pelo hoje monsenhor Thomás Rafainer em suas bodas de ouro (50 anos de casados). Dona Evangelina faleceu há cerca de uma década.

Ele sempre foi um cavalheiro. – Quando fui lixeiro e depois como taxista, sempre tratei bem as pessoas a quem servi. Senhor fulano, Dr. sicrano, Madame... Quando comprei meu carro e coloquei na praça, andava com um pequeno dicionário de inglês no porta-luvas e fui aprendendo algumas palavras, mister, mistress, good morning, tanks... Era o Quarto Centenário da cidade de São Paulo [1954] e havia muitos turistas. Enquanto ia lembrando, ia pedindo – Jô, minha filha, veja o que o amigo Sudaia quer, um suco, aquele sanduíche de queijo minas na baguete da [padaria] Rainha, um café... e Joselina de Jesus, empregada dedicada que trabalhou lá por nove anos se tornando ‘os olhos do velho’ e sua filha adotiva que supriu a falta de suas filhas verdadeiras, Adelaide e Fátima, já falecidas, ia servindo a mesa, com a mesma gentileza e hospitalidade do veterano anfitrião.

Andar pelas calçadas, tomar ônibus, ir para o pronto-socorro da Antena de SAMU, tudo isso enfrentou com coragem, nunca se resignando a ficar em casa de pijama como muito nonagenário por aqui.



O título de Cidadão Taboanense que lhe foi outorgado em 2002, proposto pela então vereadora Arlete Silva, grande amiga e correligionária, contou com a unanimidade dos votos da Câmara. Como isto [a unanimidade] não aconteceu em alguns casos da mesma época, era motivo de garbo para o meu veterano amigo.

Há ainda muita história a contar sobre ele, tarefa que irei executando aqui no TOL ou no meu blog ( blogdosudaia.blogger.com.br ) mas, por enquanto, vou reproduzir aqui a descrição do primeiro dia de Taboão como município, texto para o qual o Arthur, que Deus o tenha, muito contribuiu (numa entrevista por telefone).

O PRIMEIRO DIA

O dia primeiro de janeiro de sessenta, sexta-feira, foi um dia ensolarado, verão pleno. Arthur Félix, com seu terno finíssimo reservado para grandes ocasiões e confeccionado pelo alfaiate das grandes autoridades, Waldemar Gonçalves, dirigiu-se ao Cine Tupy, local propício para eventos solenes com acomodações confortáveis para uma platéia média, mas que o pequeno prédio da prefeitura-câmara na Rua Getúlio Vargas não conseguiria acomodar. Ia tomar posse como vereador. Era a primeira legislatura da cidade, e todo mundo vestia seus melhores trajes, a cidade nascia nos seus melhores figurinos.


Largo do Taboão, matinê do Cine Tupy, época da emancipação, roupa de domingo para assistir Sansão e Dalila, Mazzaropi, Roy Rogers etc. (foto do acervo Marina Baranówsky)

A praça da Igreja de Santa Terezinha estava em festa. O serviço de auto-falantes comandado por Waldemar Bassani (cuja semelhança física com o Gonçalves, além do fato deste também ter comandado o mesmo serviço de som, geram até hoje alguma confusão) anunciava o show artístico e circense comemorativo do dia da posse. Taboão respirava alegria.

Outro que não cabia em si de contente era Nicola Viviléchio, nosso primeiro prefeito. Tendo ganhado a eleição de virada, entrou quase no fim para enfrentar nada mais nada menos do que a dama da sociedade e amiga do governador do Estado Laurita Ortega Mari, e graças ao prestígio e à influência dos seus colegas do Instituto Pinheiros, tradicional laboratório precursor do Inst. Butantã que ficava na Vila Iasi, abocanhou o cobiçado cargo.

Dentre os presentes, firme ao seu lado, Natalino Tedesco, seu colega do Instituto e um dos 117 votos de diferença que garantiram a vitória do "Nicolinha", exemplo de pessoa dedicada, amiga e companheira. Dona Beatriz, a primeira-dama, era de uma família do Engenho Velho, no Embu. Se conheceram e começaram a namorar quando o time do Instituto ia jogar no bairro vizinho, Nicola era um grande beque central, Natalino um excelente goleiro.

Outra personalidade presente foi Walter Belisqui. Era personalidade mesmo porque, sendo o chefe do novo prefeito no Instituto era alvo de brincadeiras que diziam que quem mandaria na prefeitura seria ele também. Fuxicos à parte, Belisqui foi um dos funcionários que construiu e organizou a administração municipal. Também estava presente Levy de Souza e Silva que viria a ser a carteira de identidade funcional número um da Prefeitura e que mereceu, com méritos, ser o nome de uma de nossa ruas.

Havia tudo por fazer, sem dúvida. Depois da posse, arregaçar as mangas e conseguir, de bolsos vazios, móveis e utensílios para o funcionamento cotidiano da administração. Cadeiras provavelmente conseguiram emprestadas do salão da Paróquia de Santa Terezinha, um centro de convergência de todas as atividades sociais da cidade que nascia ou da Sajamar, Sociedade Amigos do Jardim Maria Rosa, que Ary Dáu capitaneava e uma das responsáveis pelo sucesso do movimento de emancipação.

O padre Carlos Spagnol, notável tocador de tuba na bandinha que se formou sob a regência daquele que foi nosso prefeito informal entre a criação do município e a posse dos primeiros administradores eleitos, Álvaro Manoel de Oliveira, rezou a missa solene na capela tradicional (a atual igreja não é mais a mesma), sob os olhares vigilantes de dois grandes anjos com trombetas que adornavam seu altar.

Na sessão solene, seo Arthur que viria a se destacar como grande tribuno, não se lembra se discursou. Os oradores, se podemos falar assim, eram Antonio Tucunduva (que foi presidente da Câmara) e o próprio Nicola. Assim mesmo, este trouxe o discurso cuidadosamente escrito num papel comprido que tirou do bolso na hora de usar a palavra. Os demais, gente simples e pouco acostumada à vida pública, não sabia ou não gostava de falar. E vejam que havia nomes, além dos já citados, que iriam se destacar na vida da cidade como Bernardino Ferreira Torres e Elder José de Freitas Cunha (ambos barbeiros), Oswaldo Cesário de Oliveira (veio a ser prefeito), Alberto Carlos de Oliveira, Mituzi Takeuti, José Martins e Ednan Vasconcellos (que chegou a ser candidato a deputado estadual na primeira vez que alguém da cidade quis voar tão alto).

Arthur Félix conta que a primeira eleição havia quase tantos candidatos quanto havia eleitores. Como a lei eleitoral era verticalizada, partidos representativos no cenário nacional tinham proporção de cadeiras garantidas o que resultava em vereadores eleitos com, por exemplo, 50 votos ao lado de "campeões" como Mituzi que garantia cerca de 200.

Seo Arthur era motorista de táxi, trabalhava no ponto da Rua João Santucci, próximo à Padaria Celeste (cujo símbolo é o Cruzeiro do Sul), sob cuja marquise ele e o Waldemar Gonçalves, munidos de um grande filão de pão, ficavam nas madrugadas conversando sobre política, discutindo as melhorias que a cidade precisava e planejando as ações de campanha na época das eleições.


Aos 90, cego mas cheio de vida e de idéias

A CARTA A JUSCELINO

Em abril, Brasília era fundada. Assistiram a inauguração numa TV Invictus, o primeiro aparelho a chegar ao Brasi, importado dos EUA e dos quais poucas unidades haviam. Uma delas, diga-se de passagem, estava no armazém do seo Benedito Coelho, na Vila Iasi. Crianças e jovens de muito longe vinham à pé para assistir programas de TV, grande novidade dos anos 50. "Ditinho" Coelho foi um dos fundadores do primeiro time de futebol taboanense, o Portuguesa das Oliveiras.

Seo Arthur conta, emocionado, que fez com que a Câmara de Taboão realizasse uma sessão solene em homenagem e escrevesse ao Presidente da República, dando os parabéns pela inauguração da nova capital e, no seu jeito grandiloqüente de falar, por ter JK "despertado o leão adormecido". E o digníssimo Presidente Juscelino Kubitschek respondeu desejando que a cidade tivesse um futuro de brilhante e progresso digno do espírito empreendedor de seu povo.

Para Arthur tudo isso teve um significado muito especial. Filho de um português pobre e analfabeto, antes de ser taxista foi lixeiro por 17 anos no Brás em São Paulo. Era um trabalho duríssimo, carregar latões de lixo com as mãos nuas e transportá-los em carroças puxadas a burros não foi vida fácil. Mas seo Arthur não tinha medo do trabalho e, fiel à lição de vida de seu pai para quem dignidade, respeito e correção eram essenciais a todo cidadão, conseguiu chegar a conversar, mesmo que por carta, com um Presidente da República.

Naquela época a vereança não era remunerada. Seo Arthur morava na Rua Getúlio Vargas, centro de um cenário de enchentes que hoje já é popular, via TV, em todo o país. Uma realidade adversa para uma cidade para a qual houve tempo em que, ao se falar sobre as praças mais belamente ajardinadas do Estado e da primeira mulher-prefeita Dona Laurita, em qualquer ponto do Brasil, as pessoas se lembravam de Taboão da Serra. A casa de Arthur Félix enchia. Numa dessas catástrofes, eis que ele conseguiu apanhar e salvar a carta de JK que saia boiando nas águas que rapidamente inundavam sua sala de visitas.

* expressão do português de Portugal, de significado semelhante à nossa 'briga de foice no escuro'.

Leia outros textos sobre Arthur Félix e Waldemar Gonçalves aqui no Taboão On Line, em:

este que reproduzimos acima em sua versão original

arquivo de imagens do próprio Arthur Félix, gentilmente cedido

a partida de Waldemar e a fala emocionada de Arthur

José Sudaia Filho postado em 21/08/2010




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