|
|
|
|
|
|
| -- | |
| Bandeira,
brasão e hino | Pontos 'Turísticos'
| YOU.TOL | Todas as Edições : 1a
Ed. (2006) | 2a Ed. (2007) | 3a
Ed. (2008) Waldemar Gonçalves | Natalino Tedesco | Arthur Félix | Ary Dáu | Homenagem ao 50o. Aniversário de Taboão Contate o Editor - sudaia@yahoo.com.br .................Página Inicial |
|
|
Quando o visitei, em 2008, na R. dos Miosótis no Parque Pinheiros, fiquei surpreso com a faixa que ele pendurou na marquise e na qual se lia enfaticamente ‘Arthur Félix agradece a Deus os seus 90 anos’. Gesto de afirmação de um cego em que a cidade se recusava a ver um emancipador da maior e mais corajosa estirpe. Perdeu a visão aos poucos em consequência do diabetes e sêo Natalino Tedesco conta que ouvia suas sensíveis descrições desse lento declínio, o sol se apagando aos poucos e sendo o último a sumir. Eu tive o privilégio de ouvir a história do tempo dos pioneiros nas palavras de dois heróis da emancipação e do desenvolvimento de Taboão da Serra, Waldemar Gonçalves, cujas memórias escrevi, ele e eu sem nenhuma ajuda de ‘amigos’, e de Arthur Félix que se considerava um homem realizado por, começando na profissão de lixeiro, ter evoluído até trocar correspondência com o presidente Juscelino, este inaugurando Brasília lá no planalto central e o pioneiro emancipando Taboão aqui na Serra.
Na época o Waldemar (grande e particular amigo do Arthur), já correspondente do Estadão e editor de uma série de jornais na região, sabendo que eu desenhava bem (estava fazendo publicidade na ESPM), me pediu um logotipo para a Associação Taboanense de Futebol, eu fiz, ele gostou e inclusive publicou no seu primeiro livro, o que me fez presente também no livro ‘Taboão da Serra Sua História Sua Gente’, o marco insuperado da sua obra de preservação dos fatos e das fotos das nossas vidas tanto pré como pós-emancipação. São inúmeras as histórias que o Arthur contava com vivacidade, lucidez e bom humor. Tinha um faro para as ‘brigas de pau de dois bicos’* e os ‘panos quentes’ da política e, mesmo após perder a visão, era agradável ouvi-lo opinar sobre a ‘conjuntura’ política atual, seus meandros e arapucas. Uma vez escrevi aqui no Taboão On Line (www.taboaoonline.com.br) que ele cego enxergava muito melhor do que muito político de visão sadia.
– Salamargo. O escritor português que morreu esta semana. Ele se mudou de Portugal porque teve lá uns problemas. Samalargo? Como se pronuncia, amigo Sudaia? – É Saramago, ele mudou de sua terra natal porque o parlamento lá deles estava pensando em proibir o livro dele ‘O Evangelho Segundo Saramago’... – Censurar o livro? – É, Arthur, é isso aí. Ficou pensando um pouco, ele ouvia sempre os noticiários de TV, ouvia a irradiação dos jogos da Copa, estava sempre bem informado e interessado no que se passava no mundo. – Censura desse jeito é uma lástima, não se pode mesmo concordar, meu amigo. Sara...mago, Saramago!
Andar
pelas calçadas, tomar ônibus, ir para o pronto-socorro
da Antena de SAMU, tudo isso enfrentou com coragem, nunca se resignando
a ficar em casa de pijama como muito nonagenário por aqui.
Há
ainda muita história a contar sobre ele, tarefa que irei executando
aqui no TOL ou no meu blog ( blogdosudaia.blogger.com.br
) mas, por enquanto, vou reproduzir aqui a descrição
do primeiro dia de Taboão como município, texto para
o qual o Arthur, que Deus o tenha, muito contribuiu (numa entrevista
por telefone). O
dia primeiro de janeiro de sessenta, sexta-feira, foi um dia ensolarado,
verão pleno. Arthur Félix, com seu terno finíssimo
reservado para grandes ocasiões e confeccionado pelo alfaiate
das grandes autoridades, Waldemar Gonçalves, dirigiu-se ao
Cine Tupy, local propício para eventos solenes com acomodações
confortáveis para uma platéia média, mas que
o pequeno prédio da prefeitura-câmara na Rua Getúlio
Vargas não conseguiria acomodar. Ia tomar posse como vereador.
Era a primeira legislatura da cidade, e todo mundo vestia seus melhores
trajes, a cidade nascia nos seus melhores figurinos. A praça da Igreja de Santa Terezinha estava em festa. O serviço de auto-falantes comandado por Waldemar Bassani (cuja semelhança física com o Gonçalves, além do fato deste também ter comandado o mesmo serviço de som, geram até hoje alguma confusão) anunciava o show artístico e circense comemorativo do dia da posse. Taboão respirava alegria. Outro que não cabia em si de contente era Nicola Viviléchio, nosso primeiro prefeito. Tendo ganhado a eleição de virada, entrou quase no fim para enfrentar nada mais nada menos do que a dama da sociedade e amiga do governador do Estado Laurita Ortega Mari, e graças ao prestígio e à influência dos seus colegas do Instituto Pinheiros, tradicional laboratório precursor do Inst. Butantã que ficava na Vila Iasi, abocanhou o cobiçado cargo. Dentre os presentes, firme ao seu lado, Natalino Tedesco, seu colega do Instituto e um dos 117 votos de diferença que garantiram a vitória do "Nicolinha", exemplo de pessoa dedicada, amiga e companheira. Dona Beatriz, a primeira-dama, era de uma família do Engenho Velho, no Embu. Se conheceram e começaram a namorar quando o time do Instituto ia jogar no bairro vizinho, Nicola era um grande beque central, Natalino um excelente goleiro. Outra personalidade presente foi Walter Belisqui. Era personalidade mesmo porque, sendo o chefe do novo prefeito no Instituto era alvo de brincadeiras que diziam que quem mandaria na prefeitura seria ele também. Fuxicos à parte, Belisqui foi um dos funcionários que construiu e organizou a administração municipal. Também estava presente Levy de Souza e Silva que viria a ser a carteira de identidade funcional número um da Prefeitura e que mereceu, com méritos, ser o nome de uma de nossa ruas. Havia tudo por fazer, sem dúvida. Depois da posse, arregaçar as mangas e conseguir, de bolsos vazios, móveis e utensílios para o funcionamento cotidiano da administração. Cadeiras provavelmente conseguiram emprestadas do salão da Paróquia de Santa Terezinha, um centro de convergência de todas as atividades sociais da cidade que nascia ou da Sajamar, Sociedade Amigos do Jardim Maria Rosa, que Ary Dáu capitaneava e uma das responsáveis pelo sucesso do movimento de emancipação. O
padre Carlos Spagnol, notável tocador de tuba na bandinha que
se formou sob a regência daquele que foi nosso prefeito informal
entre a criação do município e a posse dos primeiros
administradores eleitos, Álvaro Manoel de Oliveira, rezou a
missa solene na capela tradicional (a atual igreja não é
mais a mesma), sob os olhares vigilantes de dois grandes anjos com
trombetas que adornavam seu altar. Seo
Arthur era motorista de táxi, trabalhava no ponto da Rua João
Santucci, próximo à Padaria Celeste (cujo símbolo
é o Cruzeiro do Sul), sob cuja marquise ele e o Waldemar Gonçalves,
munidos de um grande filão de pão, ficavam nas madrugadas
conversando sobre política, discutindo as melhorias que a cidade
precisava e planejando as ações de campanha na época
das eleições.
A CARTA A JUSCELINO Seo
Arthur conta, emocionado, que fez com que a Câmara de Taboão
realizasse uma sessão solene em homenagem e escrevesse ao Presidente
da República, dando os parabéns pela inauguração
da nova capital e, no seu jeito grandiloqüente de falar, por
ter JK "despertado o leão adormecido". E o digníssimo
Presidente Juscelino Kubitschek respondeu desejando que a cidade tivesse
um futuro de brilhante e progresso digno do espírito empreendedor
de seu povo. Naquela
época a vereança não era remunerada. Seo Arthur
morava na Rua Getúlio Vargas, centro de um cenário de
enchentes que hoje já é popular, via TV, em todo o país.
Uma realidade adversa para uma cidade para a qual houve tempo em que,
ao se falar sobre as praças mais belamente ajardinadas do Estado
e da primeira mulher-prefeita Dona Laurita, em qualquer ponto do Brasil,
as pessoas se lembravam de Taboão da Serra. A casa de Arthur
Félix enchia. Numa dessas catástrofes, eis que ele conseguiu
apanhar e salvar a carta de JK que saia boiando nas águas que
rapidamente inundavam sua sala de visitas. José Sudaia Filho postado em 21/08/2010 |
|
|
© José
Sudaia Filho 2009 / 2010 |