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O livro Taboão da Serra na Virada do Milênio é o legado de Waldemar Gonçalves, o pioneiro desprezado, para a cidade que tanto amou.
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Entrevista gravada com Waldemar Gonçalves e sua esposa, dona Antonieta por JSF em 6/4/1999

Ouça um minuto desta entrevista com o Waldemar, clicando aqui.


Sudaia: Você nasceu em que ano, W?
Waldemar: 23, eu sou de 1923.
Sudaia: Então você começou mesmo a costurar com que idade?
Waldemar: Uns quinze anos, desde os quinze anos.
Sudaia: Então, nessa idade você já conhecia a costura?
Waldemar: Já conhecia até a namorada nessa data, não ia conhecer...
Sudaia: Era 1938, mais ou menos... se o Seo Abrão ouvisse isso... (Risos)
(o Waldemar havia contado antes da entrevista que já namorava quando menor de idade e, ao mesmo tempo, já ajudava o empresário Sr. Abrão a fundar a Cory, fábrica de roupas situada na Rua Cardeal Arco Verde, em Pinheiros, época em que conheceu Dona Antonia)
Waldemar: Eu tinha fábrica, eu tinha duzentos empregados. Eu tenho ainda o estoque de moldes até hoje. Muitos ainda do tempo da fundação da Real (antiga fábrica de roupas e equipamentos de proteção profissionais que funcionava em Taboão da Serra). Se começar a chover ali (aponta um canto no quartinho que podia ter goteira) acaba com tudo.
Dona Antonia: Tinha o pesponto... dava um trabalhão.
Waldemar: É, tinha o pesponto também, aquilo era uma arte. (Pesponto é um tipo de ponto de costura em que a agulha entra no tecido um pouco atrás do lugar em que saiu; ponto-atrás; usado como uma espécie de pré-costura.)
Dona Antonia: Fazia paletós, roupas de criança, tudo com muito cuidado. As pessoas vinham tirar as medidas... hoje não tem mais nada disso.
Waldemar: É, não sabem como faz, o trabalho que dá. Coleção da Real, trouxe tudo... capas, essas capas vermelhas e amarelas, gola dura com espala (forração interna que evita que a gola se amarrote). Dei lá para o meu irmão guardar (o irmão Durval é alfaiate também), não guardou nada, isso desanima a gente.
Sudaia: E a Dona Antonia ajudava?
Dona Antonia: Oô, se ajudava! Passava horas “bordando” aqueles paletós... ai, ai!
Waldemar: Ela tem uma mão boa pra isso... pois é, dava um trabalhão, a gente não tinha máquina nem nada (quando trabalhava em casa).
(Waldemar vai mostrando uma pilha de moldes de papel Kraft, com anotações feitas a lápis-giz de alfaiate)
Waldemar: Eu outro dia comprei um terno que ficou ai no cabide dois anos. Não adianta, roupa feita (pronta) não consigo usar, não gosto, não gosto.
Dona Antonia: Ele não se adapta, fica larga nos ombros, aperta nas pernas.
Waldemar: Essas calças modernas, eu tenho observado muito, cava (corte na parte mais alta de cada perna) baixinha, boca larga e chata. (Faz um sinal no ar como se cortasse algo com um facão.) Desmonta toda a linha física a roupa. Eu sou muito crítico com essas coisas.
Sudaia: Eu só tenho um terno que foi um sacrifício para escolher. Sou avesso a ternos mas, como tinha de ir numa cerimônia, comprei um no Mappin (antigo magazine que ficava na no centro de São Paulo, em frente ao Teatro Municipal). Como vocês podem ver, eu sou o anti-padrão. Mesmo com os ajuste que as costureiras da loja fizeram, ele é uma coisa horrível, pra caber na barriga, ficou largo nos ombros, as calças curtas ficaram sem caimento. Aí quando estou de terno parece que estou com os pés enterrados no chão! (todos riem)


(ilustrações do livro "Taboão da Serra na Virada do Milênio)

Dona Antonia:
(Conta o caso de uma pessoa justamente o oposto, magra e alta e as dificuldades que tinha para se vestir)
Sudaia: Pois é, o prêt-à-porter tem essas limitações...
Waldemar: Porque a roupa é anatômica, tinha uma tabela de medidas e, saiu dali, escapa tudo... Hoje tem alfaiate que não conhece isso, um bom terno começa nas medidas, no papelão (molde).
Sudaia: Podemos retomar como começou a lida de alfaiate?
Waldemar: (limpando a garganta) Eu comecei com doze, quinze anos, aprender o ofício de alfaiate, então a minha profissão acabou sendo alfaiate, muito embora o meu certificado de reservista registre que eu sou lavrador.
E então eu tinha uma freguesia selecionada muito grande e eu, além de alfaiate, fui um bom profissional, fino, porque era uma alfaiate artesanal, um negócio muito sério precisa ser artista para fazer uma roupa elegante e eu para atingir esse aperfeiçoamento profissional, como sou bastante curioso, comecei a fazer cursos todos de corte...
Sudaia: Nessas coisas de profissões que se extinguem com a mudança dos costumes, tem o pai de uma amiga minha que tinha a última fábrica de chapéus da cidade de São Paulo e que era o único membro do sindicato patronal da categoria. Quando a fábrica fechou, acabou o sindicato.
Waldemar: Daí, um dia, comecei a ir para o jornalismo e fui parando de aceitar encomendas e, para não atrasar, resolvi parar de uma vez... e não fiz mais ternos.
Sudaia: Quem eram os elegantes aqui na época da emancipação?
Waldemar: Aí... aí... é engraçado, você faz umas perguntas que a gente volta muito atrás no tempo. Quem fazia todos os bailes da primavera éramos eu e a Zéza (Maria José Luizetto Buscarini, que foi vereadora e secretária municipal, mãe do prefeito Buscarini), sempre fizemos isso. Nós alugávamos o local, fazíamos bailes e concursos de rainha (da primavera) e até ganhávamos algum dinheiro às vezes. Então mexíamos com a elegância das pessoas. A Dona Zéza foi uma das grandes elegantes, sempre se vestiu muito bem. Inclusive ela e o seu marido Buscarini (Vicente) eram dançarinos de tango fora de série. Até pouco tempo antes dele morrer, ainda íamos no Vila Sofia (Cassino Vila Sofhia, cassino só no nome, salão de baile, uma das mais tradicionais gafieiras da capital, na avenida de Pinedo, bairro do Socorro, Santo Amaro), eu, ele, a Zéza e a Antonia, minha esposa. (Dona Antonia sorri, relembrando) Depois ele ficou doente e tudo parou.
Sudaia: Quem mais?
Waldemar:
Ah, a Dona Laurita! Ela foi vedete profissional do tempo da Hebe Camargo, e muito amiga da outra vedete profissional que trabalhava no teatro do “não sei o que lá” Machado (Carlos Machado, produtor de revistas–espetáculos do chamado “teatro do rebolado“ – que faziam grande sucesso nas décadas de 60 / 70). E tinha as filhas do Zéquinha (José Domingues de Moraes Filho, vereador e vice-prefeito), muito bonitas, lindas, perfil escultural, sempre ganhavam para rainha... e as filhas do João Clemente (de Oliveira, fundador de partidos políticos e candidato a vereador e prefeito).
(Nós mexíamos a limonada fresquinha que Dona Antonia nos servia, dá pra ouvir na gravação)
Sudaia: Uma das filhas do Zequinha abriu um centro depois que a mãe morreu, não foi?
Waldemar: Virou médium e o Zequinha também... eles estão fazendo a parte deles o que é uma coisa muito boa. E é por aí assim mais ou menos... Eu também era dentre eles muito citado com elegante, também com tantos anos como profissional... Ah! Tem o Nicola Viviléchio (primeiro prefeito de Taboão), esse sim era o maior de todos. A esposa dele também era muito linda.
(Volta a falar dele mesmo)
Eu posso dizer pra você quem se destacava pela postura e elegância porque fiz muito desfile de moda. Eu fui fundador da Cory, da Prelude (importantes fábricas de roupas e magazines da região de Pinheiros). Da Regência (fábrica de roupas que ficava na Francisco Morato, altura do Caxingui, onde hoje é um hipermercado Pão de Açucar 24 h), trabalhei também na Garbo (famosa fábrica e loja de ternos e moda masculina), eu trabalhei quase vinte anos lá.
Sudaia: (cantarolando)“Você precisa de uma roupa nova, lojas Garbo tem”(jingle de publicidade que tocava no rádio).
Waldemar: É desse tempo! É desse tempo! E quem aparecia muitas vezes como modelo era eu, fazia filminho, fazia propaganda... Tinha isso ainda.
Sudaia: Você foi garoto-propaganda então? (Dona Antonia, rindo, aponta para o Waldemar e balança a cabeça afirmativamente. Todos rimos.)



Waldemar: Na Garbo tinha lá um modelista chamado Sr. Américo Pirola. Eu aprendi com ele, era um cara fantástico! Ele fazia questão de que as roupas da Garbo fossem as melhores do Brasil! E ele fazia desfiles famosos até na Europa. Eu fui ajudante dele, aprendi muito com ele. Quando ele adoeceu, eu fiquei no lugar dele dirigindo a fábrica. Depois ele morreu, eu sai, a fábrica fechou. Por isso, eu conheço o mundo elegante! Eu, por exemplo, nunca tive alfaiataria, nunca trabalhei assim estabelecido. Eu trabalhava como freelancer, então eu tinha muitos amigos médicos. Então eu ia no Hospital das Clínicas, me davam uma sala lá e eu ficava lá um mês inteiro só servindo os médicos.
Sudaia: Assim, um serviço tratado? Tudo sob medida...
Waldemar: É. Eu fazia uns dois ou três ternos para um, depois passava num dos amigos dele. Como todos se vestiam muito bem, deu pra mim dar início a uma profissão. Porque a roupa feita profissionalmente, além de ser bem feita, ela tem que ter elegância, tem que ter linha, tem que ter um condicionamento assim difícil, é muito difícil atingir esse nível. Então eu fazia uma modelagem, só pra você ter uma idéia, eu entregava, fazia uma amostra completa. E fazia o custo-produção todinho. Porque a produção depois era toda na linha industrial. Era um negócio muito difícil de fazer mas como eu gosto desses desafios... depois de aprender a fazer para homens, aprendi a fazer para mulheres que é uma das minhas outras especialidades. Depois vim para a Real aqui do Taboão...
Sudaia: Daí não era mais prova de roupas, não é?
Waldemar: Não, aí eu me apaixonei por roupas profissionais, então fui fazer capas, capuz, roupa de amianto para boca de forno, luvas... fiquei uma porção de tempo aqui. Depois ela também fechou, faliu... A Regência tinha falido, a Real faliu e eu não tinha futuro. (Risos) Mas daí eu já estava aqui no Taboão e atendia vários clientes, como o Osvaldão (Osvaldo Cesário de Oliveira, muito amigo do Waldemar ) e o Ary Dáu (vereador e prefeito) que sempre se vestiu muito bem. Ganhei dinheiro, criei minha família com o ofício de alfaiate. Eu fazia ternos para o Nicolinha (Viviléchio) daqui do Taboão que tinha uns vinte feitos por mim. Mas fazia também para o Quinzinho, prefeito do Embu, para todos os vereadores... em Itapecerica fazia para juízes e desembargadores. Mas é muito difícil ganhar muito dinheiro nessa profissão, pra ter uma idéia, pra fazer um paletó, você trabalha uma semana e eles te pagam duzentos “mi-réis”, num dá, é menos que um salário mínimo, então deixa de ser interessante.
(Expressão carregada e séria) E a profissão de alfaiate acabou, às vezes você vê um por ai, fazendo só paletó. Veja você, até na televisão, o próprio Silvio Santos compra roupa feita...


Clique aqui para ver a reprodução de várias págs. das Revistas do Rádio e do Disco dos primeiros anos da década de 50 onde podemos sentir a atmosfera da época. Pouco tempo depois chegariam os grandes magazines vendendo o pret-a-porter (pronto para vestir) que iria acabar com a prosperidade dos alfaiates e costureiras que se dedicavam aos trajes feitos sob medida.

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