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Nelson de Oliveira
Moraes concedeu
esta entrevista ao TOL em sua imobiliária na Praça Nicola Viviléchio.
Dinâmico aos 70 anos de idade, está à frente dos negócios
mesmo após sofrer amputação de suas pernas devido a complicações
de diabetes. Na prateleira, as máquinas de escrever que teve e hoje
foram substituídas pelo computador e a foto em que aparece ladeado
pelos 3 netos adolescentes. Enquanto mostrava a pasta de recortes de todos
os jornais da cidade que noticiaram sua eleição para a presidência
do Rotary Club em 1987, foi falando dos fatos da cidade dos quais participou
e estão vivos em sua memória.
Casa
nova
Um pouco chateado por ter tido de se mudar do prédio onde, por 30 anos,
trabalhou com sua imobiliária, prédio este vendido ao Supermercado
Extra, diz que está enfrentando com coragem a mudança em todo
caso boa para o progresso da cidade. A Empreg, empresa de recrutamento e seleção
de pessoal dirigida por sua mulher e filha veio junto.
Taboão
nem era Taboão
Seo Nelson nasceu no Taboão no tempo em que Taboão nem era Taboão.
Foi em 1935. Seu pai era José André de Moraes, o Zeca da Venda,
um dos pioneiros e fundadores da cidade. Seus avós também viveram
aqui. A casa do Seo Zeca ficava onde hoje fica a Faculdade, no Largo do Taboão.
Taboão não era nada. Tinha a igreja de Santa Terezinha, uma
escola e uma bomba de gasolina. Mas nada. Foi nessa escolinha que Seo Nelson
estudou. O primeiro ônibus da empresa do Sr. Guerra era dirigido pelo
Sr. Altino e o primeiro motorista de taxi era o Sr. Adão Moraes de
Oliveira, seu tio.
Calhambeque
Ford 29
Seo Zeca, conta seu filho, vinha do Embu em carro de boi, entregar carvão
no Largo de Pinheiros. Mais tarde, já na era do automóvel, na
ponte de madeira que existia na R. João Santucci, altura onde é
hoje o Hospital Family, quantas vezes Seo Zeca não ficou atolado com
seu calhambeque Ford 29! Como se vê, Seo Zeca e Seo Adão estão
ligados também à história dos transportes na cidade.
O
Seo Adão é o cavalheiro que aparece em diversas fotos frente
ao casarão que ficava no Largo, no entroncamento da BR-116 com a Estrada
do Campo Limpo, ao lado da primeira bomba de gasolina que apareceu por estas
bandas. Sua esposa, Dona Catarina, ainda hoje ajuda a missa no Santuário
de Santa Terezinha.
O
Cristo mudou o nome do Morro
O Cristo Redentor, uma estátua que se tornou símbolo de Taboão
(mas que existe em várias outras cidades de origem e fé católica
como a nossa) é obra diretamente realizada pelos nossos pioneiros.
Datada da época da instalação do município, em
sua base está encerrado um livro de assinaturas com todos que contribuiram
para sua construção. Seo Nelson lembra de vários além
de, é claro, o seu pai José André de Moraes. Estão
lá os nomes de Sebastião da Cunha, José Severino Marques
Filho, Álvaro Manoel de Oliveira, José Ruiz Moreno, José
Domingues de Moraes Filho, Antonio Inácio Maciel, Marie Rose Maciel,
Leo Baranowski e diversos outros dos quais não se recorda.

Seo
Juca e o Cine Tupy
A sessão solene de posse dos primeiros dirigentes municipais foi no
Cine Tupy, no Largo do Taboão, que pertencia a José Severino
Marques Filho, conhecido como Seo Juca, sogro do Seo Nelson. Houve ainda a
missa solene celebrada pelo Padre Carlos Spagnol. Seo Nelson havia sido coroinha
e o seu casamento com Dona Raquel Marques foi em 1o. de junho de 1961, o primeiro
casamento acontecido após a emancipação.
A
primeira escola era na Igreja
Dona Raquel foi a primeira professora da escola que funcionava contígua
à igreja a residir em Taboão da Serra, antes dela as professoras
vinham de fora como a primeira professora, Maria José Montemor, que
morava em São Paulo. Era uma escolinha de madeira com quatro salas.
Dona Raquel lecionou 33 anos lá até que a escola foi transferida
para o novo colégio no Jardim Maria Rosa, obra de Dona Laurita. Por
ali passaram pessoas como Orlandino (depois vereador e presidente da Câmara),
Ricardo Andrade, as filhas do prefeito Ary Dáu e o filho do juiz Pupo
Nogueira, que tinha chácara no centro de Taboão.
Pronto-Socorro
da ambulância
Seo Juca que tinha oficina mecânica com Seo José Ruiz Moreno
e, como a prefeitura não tinha dinheiro, fazia a manutenção
das ambulâncias e caminhões sem cobrar a mão-de-obra.
Quantas vezes não vinham buscar Seo Juca para socorrer a ambulância,
quer dizer, fazê-la funcionar para que pudesse levar algum doente grave
ao Pronto-socorro do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
No
início a administração era muito pobre
A prefeitura e a câmara eram muito pobres no início. Funcionavam
num sobrado alugado na Rua Getúlio Vargas. Tinha poucos funcionários.
Levy de Souza e Silva chefiava poucas pessoas dentre as quais o jovem advogado
Eduardo Aranha e Walter Belique, colega do prefeito Nicola no Instituto Pinheiros.
A casa do Seo Nelson e as propriedades do Moraes ocupavam todo o Largo do Taboão, envolvendo a área onde hoje está o Supermercado Extra e adjacências. Tinham cavalos, seu pai teve um açougue e a primeira sorveteria de Taboão. Era também dele o primeiro matadouro da região.
Sansão
e Dalila
O Cine Tupy, famoso cinema tão ligado à vida e ao imaginário
da cidade, teve sua inauguração com o filme Sansão e
Dalila, em preto e branco, mas já do cinema falado. Fechou porque um
empresário interessado em abrir uma concessionária Volkswagen
fez uma oferta irrecusável ao Sr. Severino. Como naquele tempo cinemas
do interior não eram boas fontes de renda (inúmeros cinemas
da capital de São Paulo viraram estacionamentos ou igrejas evangélicas
por não renderem muito em suas bilheterias), o nosso Cine Tupy fechou
as portas.
A mãe de Seo Nelson, Dona Catarina Moraes de Oliveira, foi quem presenteou Seo Zeca com a pitangueira que viria a se tornar a árvore-símbolo da cidade. Era costume fazer isso naqueles tempos em que nossa cultura era uma cultura de chacareiros e sitiantes, muito ligados às plantas e à Natureza. Hoje a pitangueira ainda está forte e viçosa no pátio do Santuário representando, apesar de não dar mais frutos, os sentimentos que motivaram este gesto carinhoso do casal. As jaboticabeiras que ficavam no quintal dos Moraes ainda estão preservadas nos estacionamentos da Faculdade Taboão.
O
primeiro banco, Banco da Bahia
Como corretor, Seo Nelson participou da negociação dos terrenos
onde viriam a se instalar diversos bancos na cidade. Mas o primeiro se instalou
num prédio já existente. Foi o Banco da Bahia, na esquina da
Rua Getúlio Vargas, área nobre (naquela época) no Largo
do Taboão. Depois vieram Bamerindus, Caixa Econômica, Unibanco
etc.
Enchentes,
as piores em 1975
Nesse tempo as enchentes não eram tão devastadoras, eram um
contratempo que as pessoas suportavam até com folclórico bom
humor. As águas eram límpidas, quando baixavam conta-se que
podiam ser encontrados peixes vivos dentro das panelas. Depois vieram o asfalto,
a poluição, a sujeira por toda parte. As piores enchentes (umas
três ou quatro) que Seo Nelson enfrentou foi em 75/76 quando sua família
morava na R. Getúlio Vargas. Hoje, com o piscinão, a coisa parecia
que ia melhorar mas não melhorou. As águas do Pirajuçara
chegam em grande volume e são represadas no piscinão, antes
as águas escorriam mais rapidamente, as enchentes não eram tão
grandes nem a água tão suja.
Prazer
de ver a cidade cada vez mais bonita
Seo Nelson conheceu todos os prefeitos e diz que foram todos pessoas que respeitaram
muito sua família e eram muito amigos dos Moraes que, muitas vezes,
eram homenageados nos desfiles cívicos do aniversário de nossa
Emancipação e Sete de Setembro. Não foi lembrado para
o título de cidadão taboanense mas seu grande prazer é
ver a cidade cada vez mais bonita. Porque as pessoas que construiram Taboão
fizeram isso porque gostavam realmente da terra, queriam fazer uma cidade
com trabalho (os taboanenses sempre foram batalhadores) e amor (estimavam
muito este pedaço de chão).

Nesta tira de quadrinhos que publiquei na Gazeta do Taboão, os personagens prestam sua homenagem ao Seo Zéca, tirando o chapéu para ele. A tira chamava-se "Sabiá" uma referência à música do Chico e do Tom mas também porque Seo Quincas e Seo Cabral, personagens centrais, cantavam versos para os taboanenses ilustres que já haviam deixado este mundo. (José Sudaia Filho)
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