
Linha
do Tempo
| Entrevistas | As
profissões
Arquivo de Imagens | Leis |
TOL recomenda | Periscópio
| Bibliografia do site
Instituto Pinheiros, Taboão da Serra S.A.

Uma fotografia, uma história. Aqui estão os fundadores
do Instituto Pinheiros: Mário Augusto Pereira, Eduardo Vaz, Pedro Romero,
José Vaz e Maria José Vaz. Esta pequena equipe de pessoas era
o pessoal do IP em 1928.
Em março de 1952, Seo Natalino Tedesco começou a trabalhar na chácara do Instituto Pinheiros, na altura da Vila Iasi, antiga Estrada de Itapecerica, futura Taboão da Serra.
Chegava cedo porque a jornada era longa.
Trabalhando em Serviços Gerais, sabia que seu dia seria árduo, mas sempre estava preparado e bem disposto. “Pau pra toda obra”, filho de imigrantes italianos, nada o esmorecia. E tinha sempre “um tempinho” para conversar sobre futebol, amizades, política, e – com o passar do tempo –, sobre os rumos da cidade que nascia.
Desde 47 colecionava a Gazeta Esportiva e, via esporte, participava ativamente da Comunidade Instituto-Pinheirense que se tornaria mais tarde a Comunidade Taboanense. E tinha o outro elemento integrador dessa comunidade, o jornal interno do IP, o Pinhão, feito pelos funcionários para os funcionários.

Nesse dia em que chegou cedo seu primeiro dia de trabalho, ainda não imaginava o quanto isso influiria em seu destino. Não só porque, colecionando cuidadosamente exemplares d’O Pinhão e Relatórios de Diretoria, preservou como ninguém a história desse grande empreendimento científico, conhecido em toda a América do Sul, em seus mais distantes rincões.
Natalino Tedesco participava de tudo no Instituto. Era o padre do casamento caipira das festas juninas, foi o garçon que serviu os astros de Hollywood que visitaram a Chácara em 54 e viria a escrever quadrinhas sobre a Seleção Brasileira campeã em 58, publicadas n’O Pinhão e que reproduzimos nesta edição.
(veja a entrevista com Natalino Tedesco, clicando aqui)
Seo Waldemar Gonçalves, cuja esposa, Dona Antonia, trabalhava na sede do Instituto em Pinheiros, andava por toda a cidade. Era correspondente do jornal O Estado de São Paulo e trabalhava na Gazeta do Taboão. “Nomeou” Natalino agente da Gazeta na Vila Iasi. Mas se conheciam muito dos campos de futebol, havia um de várzea na Vila Iasi, Waldemar era locutor esportivo e sempre dizia que Natalino era o melhor goleiro que Taboão já teve. Seo Natalino não concorda mas eram grandes amigos.
Natalino fez uma brilhante
defesa neste jogo pelo Grêmio da Sinték, a empresa que comprou
o Instituto Pinheiro (o jogo era no campo da V. Guilherme). Perderam nos penaltis
mas Seo Natalino fez o melhor que pode.
O esporte sempre esteve no sangue de Seo Natalino, que participou da Liga Taboanense de Futebol como 2o. Secretário (1967). É sempre bom lembrar que não é a mesma de hoje.
Seo
Natalino considera ruim sua caligrafia, então montava com recortes
as tabelas dos jogos do Campeonato Taboanense. É ou não é
um artista?
Em 54, quando foi fundada nossa primeira e única rádio, a Difusora Litoral Sul, WG levou Natalino para ser produtor, função na qual usou seu lote de discos de vinil LPs e, com o próprio Waldemar como apresentador, levavam ao ar “Tangos e Boleros”, gêneros que eram a música popular daquela época.
Waldemar em ação
ao microfone e Dona Laurita, prefeita, numa entrega de troféus do campeonato
de futebol, 1967.
Mas voltemos ao Instituto, onde Seo Natalino estava encarando seu primeiro dia de labor.
A rotina dos
serviços no IP era estafante. As vacinas eram produzidas a partir da
inoculação de vírus em cavalos vivos e, após abatê-los,
era retirado o fármaco anti-rábico. A Chácara tinha mais
de dois km de intensas atividades. E era lá que Seo Natalino se dedicava
com toda a energia que seu corpo franzino possui. E o bom humor que lhe é
peculiar.
Seo
Natalino, jovem, com os filhos, na Rua Padre Bento, V. Indiana de hoje. Naqueles
idos de 1965, era a Chácara Coração de Jesus.
Seo Natalino assinalava o ponto ao lado do laboratorista Nicola Viviléchio, mas a proximidade deles era grande mesmo nos campos de futebol. Nalino era goleiro e Nicola beque (jogador da defesa). Corpulento e atento, o “Nicolinha” era um ótimo zagueiro central, como se dizia na época.
(veja na seção de imagens a foto inédita dos dois uniformizados numa peleja desportiva)
Antenado com o mundo e com a ciência mais avançada, o Instituto era o pólo irradiador das idéias de autonomia do nosso pequeno bairro do distrito de Itapecerica, subúrbio da cidade de São Paulo, daí ser chamado pelo Waldemar Gonçalves, de o berço da emancipação.

Nicola Viviléchio, Laurita Ortega Mari, Dr. Jesuíno Maciel
Os outros pólos eram os Mari, Dona Laurita e Seo Pedro, na chácara da confluência do Poá com o Pirajuçara e os Maciel no Jardim Maria Rosa. José Jesuíno Maciel era renomado médico e cientista de São Paulo, companheiro de Oswaldo Cruz em diversas cruzadas de benemerência para o país e tinha um Laboratório de Análises no centro da capital. Por isto se vê que não foram os recentes prefeitos médicos que trouxeram uma visão mais científica para a administração de Taboão.

Seo Natalino foi um entusiasta da emancipação desde a primeira hora. Na primeira eleição municipal, em 59, havia a candidatura de Dona Laurita que aqui chegou depois da emancipação e, pelas suas obras de benemerência e concessões obtidas do Governador Adhemar de Barros de quem era amiga, era conhecida como “mãe dos pobres”.
Mas o pessoal do IP tinha outras idéias. Incentivaram Nicola a se candidatar e, com os seus cento e poucos votos, cuidadosamente contados, fizeram a diferença que derrotaram a adversária.
Vem daí (opinião do editor) esse choque de tendências que até hoje se confrontam em nossa história política: de um lado a gente da terra com seu jeito próprio de fazer as coisas preferindo agir autonomamente nos limites (de tempo inclusive) dos recursos próprios e, de outro, aqueles que acham que devemos trazer tudo de fora, importar para crescer. A bossa taboanense dos estatistas versus a os privatistas.

O
Instituto Pinheiros era esta casa no bairro de Pinheiros no ano de sua fundação,
1928. O desenho, um bico-de-pena é provavelmente de A. Esteves, um
artista de fino traço lá do Instituto, também exímio
em aquarelas.
No princípio era o IP
O Instituto Pinheiros tem um papel essencial na formação de Taboão da Serra. Em geral consta das histórias sobre a nossa origem apenas como uma curiosidade, aquele do qual derivou o nome do bairro Parque Pinheiros. É muito mais do que isso. Muito da nossa maneira de ser como povo deriva diretamente do ideário e da atitude dos dirigentes e dos funcionários dessa instituição.
Através do IP, Taboão já figurava no circuito científico internacional desde a década de 30. Era nele que, pela primeira vez na América Latina, se produziram as vacinas de acordo com as fórmulas do Laboratório Pasteur de Paris, fundado pelo próprio Dr. Luiz Pasteur, descobridor da vacina contra a raiva e do método da pasteurização que revolucionaram a medicina, a alimentação e a agricultura nos primeiros anos do século XX.
Área
de sangria dos equinos na Chácara do IP na Vila Iasi
Taboão nem era Taboão ainda. Nem éramos a sede do IP. Aqui ficava a assim chamada “Chácara” do Instituto. Era o Departamento de Imunização do Instituto Pinheiros, onde se produzia a matéria-prima das vacinas a partir de animais que eram sacrificados depois. Era o método usado naquela época.
Emblema
do Instituto, conhecido em todos os recantos do Brasil e da América
Latina como sinônimo de produtos de qualidade e salvadores de vidas
humanas
De um pequeno sítio em 1928, ano da fundação do Instituto, dez anos depois, já abrigava amplas e modernas instalações. Ficava na antiga Estrada de Itapecerica (hoje Régis Bitencourt) e tinha 660 acres (2,67 km2).
Era um laboratório de produtos terapêuticos. Uma Sociedade Anônima. Suas especialidades eram Bacteriologia, Imunologia, Química e Serviço Anti-rábico.
O seu fundador e diretor por muitos anos foi o Sr. José Vaz que faleceu em 1943. Outro foi o Dr. Mário Augusto Pereira, morto em 1948.
Em 1977, o IP foi vendido para um laboratório norte-americano, o Sinték de Palo Alto, Califórnia. O pessoal que trabalhava em Taboão foi transferido para a Vila Guilherme na capital paulista e a seção de imunização foi para a cidade de Espírito Santo do Turvo, na região de Bauru.
O que Taboão deve ao Instituto Pinheiros
Mas o Instituto Pinheiros, presente na História do Brasil, continua presente ainda em diversos aspectos de nossa vida aqui em Taboão da Serra.
Muita gente das principais famílias que compuseram os pioneiros e emancipadores de Taboão da Serra, trabalharam lá. No abaixo-assinado que pediu nossa emancipação, diversos funcionários, dos mais humildes aos mais categorizados, colocaram sua assinatura. Inclusive o Sr. Natalino, o de número 057.
Respirava-se ciência, cidadania e cultura na Vila Iasi, onde ficava o IP. A elite das famílias de Taboão trabalhava na Chácara e, por seus usos, costumes e forma de pensar, estava mais para a elite paulistana de Pinheiros do que para nossos interioranos vizinhos Embu e Itapecerica.
Esquematicamente, muito esquematicamente, podemos dizer que “herdamos” do Instituto Pinheiros:
1 – Labor Incansável
O IP era uma empresa paulistana – uma SA –e, como tal, correspondia a toda a ideologia do trabalho humano como motor do progresso que fez de São Paulo a locomotiva do Brasil. Essa ideologia do trabalho como fonte de toda possibilidade de êxito na vida pessoal e profissional está no nosso brasão de armas que contém a legenda “Labor Omnia Vincit”, ou seja, “O trabalho tudo vence”.
2 - Gosto pelos esportes
O Institutuo tinha seu próprio time, uma espécie de seleção de seus melhores craques. Participavam de Campeonatos municipais e realizavam torneios internos. Isso fez escola em Taboão. O nosso primeiro time de futebol, o Portuguesa das Oliveiras, foi fundado por Dito Coelho, que trabalhara no Instituto. Nosso primeiro Prefeito, Nicola, era muito querido porque jogava futebol.
3 – As duas forças antagônicas
Primeiro prefeito era
funcionário do IP e ganhou a eleição graças aos
votos de seus colegas. Contra Laurita, vinda de São Paulo depois da
emancipação.
Desse embate nascem as duas visões que, na minha opinião, competiriam
na cidade até nossos dias: a dos “naturalistas” que querem
construir tudo com as próprias mãos, fazer em casa (Nicolinha
e pessoal do Instituto) e os “estrangeiristas”, que querem trazer
coisas já prontas de fora (Laurita).
4 – Organização político-administrativa
Nicola trouxe seu chefe no Instituto para organizar a Prefeitura. Era Valter Belisque que demarcou os limites da cidade, estagiou na comarca de Itapecerica para poder organizar nossas finanças, os departamentos, a política de pessoal, os critérios salariais etc.
Valter
Belisque foi o organizador da nossa Prefeitura e o demarcador de nossos limites.
Através dele, toda a cultura administrativa, social e ideológica
do IP plasmou-se na administração municipal. Ele é o
primeiro da direita na inauguração da Agência dos Correios
e Telégrafos em Taboão, ao lado da Matriz de Santa Terezinha,
em 1970.
5 – Imprensa gratuita
Os jornais se espelham no Pinhão, tanto que são gratuitos até hoje. Alguns já tentaram se tornar pagos mas não tiveram o menor sucesso.
6 – Desfiles cívicos
Os desfiles cívicos à moda dos do SESI em São Paulo.
Desfile
de 1o. de maio.
7 – A Biblioteca Castro Alves
A cultura era
estimulada com bibliotecas nas principais filiais do Instituto Pinheiros.
A de Taboão da Serra foi a primeira a ser inaugurada (31/8/1955). Chamava-se
Castro Alves. A preocupação em ter uma biblioteca vem da primeira
equipe de governo, tanto que o decreto de sua criação data de
1960.
Mas por absoluta falta de recursos, não conseguiram instalá-la.
Foi Ary Dáu que a inaugurou, em 1972, fato que deveria constar (como
constava) na placa de bronze colocada na entrada da atual biblioteca.
Inauguração
da Biblioteca Castro Alves da Filial do IP em Uberlândia. Nesta altura
já existiam 18 bibliotecas espalhadas pelo Brasil. A primeira delas
foi inaugurada aqui em Taboão da Serra. Eram promovidas pelo Departamento
Cultural da Associação dos Funcionários do Instituto,
entidade atuante em todos os aspectos de interesse dos funcionários.
O Pinhão não nos deixa mentir:
(mantida a ortografia vigente na época) “O trabalho foi dignificado pelo Cristianismo. Antes dele, nos períodos da escravatura e mesmo da corporação, era o trabalho considerado actividade indigna. Mas veio Jesus Cristo e ensinou de novo o que uma vez já havia sido dado a conhecer, mas que os homens haviam esquecido ou mal interpretado – que a base da condição humana é o trabalho, e que é nele, e por êle, que o homem encontra a um só tempo distração e conforto, dignidade e força, elevação e alimento.
O ensino fundamental sobre a essência ética do trabalho foi-nos legado pelo próprio Jesus, quando afirma solenemente: ‘Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também’ (João V; 17) A essa afirmativa correspondia, da parte de Deus–Homem, uma dupla actividade laborativa – a actividade manual do ofício de carpinteiro, que exercera, e a actividade espiritual do seu próprio Ministério Divino.
Seguindo-lhe os princípios – discípulo excepcional de Jesus e seu apaixonado Apóstolo – Paulo de Tarso trabalhou infatigavelmente até que lhe cortaram o fio da existência terrena, largando a amarra que o lançou para os páramos celestiais.” (Trecho do artigo SÃO PAULO E O TRABALHO de H. Veiga de Carvalho, publicado n’O Pinhão de janeiro de 50, 2a edição do periódico, órgão dos Funcionários do IP)
-.-
“Comemorando a data máxima dos trabalhadores, o SESI, como nos anos anteriores, fêz realizar, como primeira etapa das festividades, o seu já tradicional desfile operário, êste ano dedicado ao IV Centenário da Cidade de S. Paulo.
A êle o Instituto Pinheiros compareceu com uma luzida representação, do que faziam parte funcionários de ambos os sexos, apresentando corpo de ciclistas e as equipes de futebol, voleibol, box, etc. devidamente uniformizados. Apresentamos ainda dois carros alegóricos, um em homenagem à mulher paulista e o segundo intitulado ‘Antevisão do Futuro’, sôbre a epopéia das bandeiras.
A representação Pinheiros obteve Menção Honrosa em Garbo e Disciplina.” (Trecho do artigo PRIMEIRO DE MAIO, publicado n’O Pinhão no. 32 de de maio-junho de 54.
-.-
“A Biblioteca Castro Alves da Associação dos Funcionários do Instituto Pinheiros (AFIP) foi inaugurada oficialmente em 31 de agosto de 1955. A segunda foi inaugurada na filial Recife em 18 de junho de 1956. Em agosto de 1958 com a inauguração da biblioteca de Taubaté, Campinas e Uberlândia, o número delas chegou a 17 e completou o sucesso do programa de expansão cultural do Departamento Cultural da AFIP.”
-.-
O Pinhão entrou
em circulação em dez de 1949. Sofreu a interrupção
de alguns anos (61 a 65), e voltou a circular em dezembro de 1965.
