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O
PRIMEIRO DIA
O dia primeiro de janeiro de sessenta, sexta-feira, foi um dia ensolarado,
verão pleno. Arthur Félix, com seu terno finíssimo reservado
para grandes ocasiões e confeccionado pelo alfaiate das grandes autoridades,
Waldemar Gonçalves, dirigiu-se ao Cine Tupy, local propício
para eventos solenes com acomodações confortáveis para
uma platéia média, mas que o pequeno prédio da prefeitura-câmara
na Rua Getúlio Vargas não conseguiria acomodar. Ia tomar posse
como vereador. Era a primeira legislatura da cidade, e todo mundo vestia seus
melhores trajes, a cidade nascia nos seus melhores figurinos.
A praça da Igreja de Santa Terezinha estava em festa. O serviço
de auto-falantes comandado por Waldemar Bassani (cuja semelhança física
com o Gonçalves, além do fato deste também ter comandado
o mesmo serviço de som, geram até hoje alguma confusão)
anunciava o show artístico e circense comemorativo do dia da posse.
Taboão respirava alegria.
Outro
que não cabia em si de contente era Nicola Viviléchio, nosso
primeiro prefeito. Tendo
ganhado a eleição de virada, entrou quase no fim para enfrentar
nada mais nada menos do que a dama da sociedade e amiga do governador do Estado
Laurita Ortega Mari, e graças ao prestígio e à influência
dos seus colegas do Instituto Pinheiros, tradicional laboratório precursor
do Inst. Butantã que ficava na Vila Iasi, abocanhou o cobiçado
cargo.
Dentre os presentes, firme ao seu lado, Natalino Tedesco, seu colega do Instituto
e um dos 117 votos de diferença que garantiram a vitória do
"Nicolinha", exemplo de pessoa dedicada, amiga e companheira. Dona
Beatriz, a primeira-dama, era de uma família do Engenho Velho, no Embu.
Se conheceram e começaram a namorar quando o time do Instituto ia jogar
no bairro vizinho, Nicola era um grande beque central, Natalino um excelente
goleiro.
Outra personalidade presente foi Walter Belisqui. Era personalidade mesmo
porque, sendo o chefe do novo prefeito no Instituto era alvo de brincadeiras
que diziam que quem mandaria na prefeitura seria ele também. Fuxicos
à parte, Belisqui foi um dos funcionários que construiu e organizou
a administração municipal. Também estava presente Levy
de Souza e Silva que viria a ser a carteira de identidade funcional número
um da Prefeitura e que mereceu, com méritos, ser o nome de uma de nossa
ruas.
Havia tudo por fazer, sem dúvida. Depois da posse, arregaçar
as mangas e conseguir, de bolsos vazios, móveis e utensílios
para o funcionamento cotidiano da administração. Cadeiras provavelmente
conseguiram emprestadas do salão da Paróquia de Santa Terezinha,
um centro de convergência de todas as atividades sociais da cidade que
nascia ou da Sajamar, Sociedade Amigos do Jardim Maria Rosa, que Ary Dáu
capitaneava e uma das responsáveis pelo sucesso do movimento de emancipação.
O padre Carlos Spagnol, notável tocador de tuba na bandinha que se
formou sob a regência daquele que foi nosso prefeito informal entre
a criação do município e a posse dos primeiros administradores
eleitos, Álvaro Manoel de Oliveira, rezou a missa solene na capela
tradicional (a atual igreja não é mais a mesma), sob os olhares
vigilantes de dois grandes anjos com trombetas que adornavam seu altar.
Na sessão solene, seo Arthur que viria a se destacar como grande tribuno, não se lembra se discursou. Os oradores, se podemos falar assim, eram Antonio Tucunduva (que foi presidente da Câmara) e o próprio Nicola. Assim mesmo, este trouxe o discurso cuidadosamente escrito num papel comprido que tirou do bolso na hora de usar a palavra. Os demais, gente simples e pouco acostumada à vida pública, não sabia ou não gostava de falar. E vejam que havia nomes, além dos já citados, que iriam se destacar na vida da cidade como Bernardino Ferreira Torres e Elder José de Freitas Cunha (ambos barbeiros), Oswaldo Cesário de Oliveira (veio a ser prefeito), Alberto Carlos de Oliveira, Mituzi Takeuti, José Martins e Ednan Vasconcellos (que chegou a ser candidato a deputado estadual na primeira vez que alguém da cidade quis voar tão alto).
Arthur Félix
conta que a primeira eleição havia quase tantos candidatos quanto
havia eleitores. Como a lei eleitoral era verticalizada, partidos representativos
no cenário nacional tinham proporção de cadeiras garantidas
o que resultava em vereadores eleitos com, por exemplo, 50 votos ao lado de
"campeões" como Mituzi que garantia cerca de 200.
Seo Arthur era motorista de táxi, trabalhava no ponto da Rua João
Santucci, próximo à Padaria Celeste (cujo símbolo é
o Cruzeiro do Sul), sob cuja marquise ele e o Waldemar Gonçalves, munidos
de um grande filão de pão, ficavam até altas horas conversando
sobre política, discutindo as melhorias que a cidade precisava e planejando
as ações de campanha na época das eleições.

Altar da antiga igreja de Santa Terezinha: aqui foi rezada a missa solene
de posse de nossas primeiras autoridades eletivas.
A
CARTA A JUSCELINO
Em abril, Brasília
era fundada. Assistiram a inauguração numa TV Invictus, o primeiro
aparelho a chegar ao Brasi, importado dos EUA e dos quais poucas unidades
haviam. Uma delas, diga-se de passagem, estava no armazém do seo Benedito
Coelho, na Vila Iasi. Crianças e jovens de muito longe vinham à
pé para assistir programas de TV, grande novidade dos anos 50. "Ditinho"
Coelho foi um dos fundadores do primeiro time de futebol taboanense, o Portuguesa
da Oliveiras.
Seo Arthur conta, emocionado, que fez com que a Câmara de Taboão
realizasse uma sessão solene em homenagem e escrevesse ao Presidente
da República, dando os parabéns pela inauguração
da nova capital e, no seu jeito grandiloqüente de falar, por ter JK "despertado
o leão adormecido". E o digníssimo Presidente Juscelino
Kubitschek respondeu desejando que a cidade tivesse um futuro de brilhante
e progresso digno do espírito empreendedor de seu povo.
Para Arthur tudo
isso teve um significado muito especial. Filho de um português pobre
e analfabeto, antes de ser taxista foi lixeiro por 17 anos no Brás
em São Paulo. Era um trabalho duríssimo, carregar latões
de lixo com as mãos nuas e transportá-los em carroças
puxadas a burros não foi vida fácil. Mas seo Arthur não
tinha medo do trabalho e, fiel à lição de vida de seu
pai para quem dignidade, respeito e correção eram essenciais
a todo cidadão, conseguiu chegar a conversar, mesmo que por carta,
com um Presidente da República.
Naquela época a vereança não era remunerada. Seo Arthur
morava na Rua Getúlio Vargas, centro de um cenário de enchentes
que hoje já é popular, via TV, em todo o país. Uma realidade
adversa para uma cidade para a qual houve tempo em que, ao se falar sobre
as praças mais belamente ajardinadas do Estado e da primeira mulher-prefeita
Dona Laurita, em qualquer ponto do Brasil, as pessoas se lembravam de Taboão
da Serra. A casa de Arthur Félix enchia. Numa dessas catástrofes,
eis que ele conseguiu apanhar e salvar a carta de JK que saia boiando nas
águas que rapidamente inundavam sua sala de visitas.
Arthur
Félix
Natalino
Tedesco como padre na quadrilha da festa junina do Instituto Pinheiros
e
o símbolo da instituição
