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OS
INVISÍVEIS
Não seria exato afirmar que a publicação do livro “Taboão da Serra na Virada do Milênio” por Waldemar Gonçalves provocou uma reviravolta nessa história de contar a História da cidade.
É verdade que alguns círculos influentes do município, tanto públicos como privados e, em especial, alguns veículos de comunicação, se ressentiram muito desse evento, sendo suficiente prova disso a interdição da simples menção ao livro e aos seus autores em parte da imprensa, o veto de sua presença na Biblioteca Castro Alves e a afoiteza com que decretaram que a edição estaria esgotada.
Mas desencadeou, sem dúvida, uma verdadeira caça ao tesouro por parte da Prefeitura e da, na época, Secretaria Municipal da Educação e Cultura, para se apoderar do maior número possível de informações, depoimentos, fotos e imagens sobre a nossa História.
A chamada Equipe de História realizou um enorme trabalho, modesto dado os recursos públicos colocados à sua disposição, mas vistoso e o acervo da Prefeitura que já incorpora naturalmente as atas da Câmara, os documentos imobiliários e legais da Prefeitura além de fotos de acontecimentos oficiais em todos os tempos, foi enriquecido com um livro de fotos, um filme, um conjunto de pranchas fotográficas e um cd-rom para aulas.
O aparato do lançamento e a distribuição restrita (uma pena) limitaram eventuais comentários ao material. Também não se incorporou ao cotidiano das nossas vidas e, na maior parte das vezes, ainda recorremos à memória dos mais antigos para saber algo sobre nossas origens.
Mas se tornou a incontestável História Oficial de Taboão da Serra.
Uma das conseqüências visíveis desse modo de fazer as coisas é a invisibilidade que alguns personagens adquiriram nessa obra. Reduzidos a notas de rodapé ou simplesmente ignorados, jazem num limbo de onde não podem sair ou serem invocados nem para evitar que se cometam notáveis equívocos nestes tempos modernos.
Dois eventos recentes nos deram a dimensão do que a falta de uma visão histórica coerente do nosso povo e da nossa cultura podem provocar.
A Prefeitura substituiu o Cristo Rendentor do Morro do Cristo, um dos cartões postais da cidade. Alegaram que não sabiam que ele havia sido esculpido por Gildo Zampol, escultor de renome (o nível de sua arte era reconhecido por grandes nomes da escultura paulista como Eugênio Prati, Armando Zago e Hélio Di Giusti, nos ateliês dos quais colaborou) que teve seu estúdio até cerca do ano 2000 no Largo do Taboão. Todos se lembram disso, havia um ponto de ônibus bem em frente, podia-se contemplar as esculturas espalhadas pela área.
(Clique aqui para saber mais sobre Gildo Zampol.)
Quer dizer, mesmo que a Divisão de Cultura consultasse a própria História Oficial, provavelmente não encontraria alusão ao sr. Zampol.
Como a visita do filho deste à Prefeitura se prontificando a restaurar a mão quebrada do Cristo original sem ônus para a municipalidade não foi nem sequer registrada, pode-se entender que a Cultura ignorasse sua existência.
Mas isto não justifica, de maneira alguma, que não pesquisassem falando com as pessoas, por exemplo, as obras de arte públicas da Praça Nicola Viviléchio, antes de nos “presentearem” com a estátua “O Bailado da Cooperação” dançado nos jardins do CEMUR. O sr. Joilson, que é daqui, deve saber de tudo isto.
O Monumento à Bíblia é de autoria do sr. Zampol e um marco de criatividade artística e fé religiosa que distingue nossa gente. A estátua recém-nascida ignora todas as obras de arte que lhe estão fronteiriças. E as pessoas que, ao longo de nossa história, as erigiram.
Só nos resta, ao comentar este assunto, fazer duas observações, tentando lançar luz sobre ele e resgatar um pouco de bom humor diante do caso.
A primeira observação é de que, mesmo que a bibliografia da História Oficial tivesse sido consultada, o pessoal da Cultura nada ficaria sabendo desse personagem singular, o escultor Zampol, ele é um dos que estão invisíveis, encoberto por um tosco projeto de, naquela obra, obscurecer qualquer destaque pessoal e nivelar por baixo sua participação na construção de nossa cidadania.
A segunda é de que História é, segundo Houaiss, “a evolução da humanidade ao longo de seu passado e presente; seqüência de acontecimentos e fatos a ela correlatos; o julgamento da posteridade; a memória dos homens”.
O trabalho que fiz com o Waldemar Gonçalves e que continuo fazendo em carreira solo em artigos na imprensa e neste site é um trabalho feito com a mais absoluta seriedade.
Apesar de discordar do escopo, julgo que, do que conheço, o trabalho da “Equipe de História” da Prefeitura chefiada pela professora Maria Cândida Delgado Reis foi feito com seriedade.
Então o que está faltando é um historiador, alguém que levante os dados, analise com isenção a evolução da cidade e a atuação dos protagonistas dessa evolução, seqüencie os acontecimentos e correlacione os fatos para nos dar uma visão clara, correta e confiável sobre “nossa História e nossa Gente”.
A Diretora de Cultura me disse que já existe um trabalhando nisso. Não me disse quem é, de onde vem, nem onde poderia ser contatado. Sinto receio de coisas produzidas em gabinete, a portas fechadas.
“Taboão da Serra, sua História, sua Gente” foi produzido pelo Waldemar Gonçalves em estreito contato com seu largo círculo de conhecidos, isto é, com a nata da população. Esse relacionamento, apesar de conter discórdias, polêmicas e contradições, tinha também vivacidade, bom humor, competição construtiva. Daí que permanece uma obra de referência até os nossos dias.
Câmara Cascudo, antropólogo e historiador dentre outros talentos, homem de incrível saber, fazia seus “levantamentos de área” para escrever seus ensaios visitando as pessoas, convivendo e dialogando com elas na cidade, nas fazendas, nas praias. E tinha uma “permanente alegria de viver. Dentro ou fora de casa, nas reuniões de intelectuais ou gente do povo em geral, Cascudo demonstrava sempre uma alegria esfuziante. Ninguém poderia comparar-se a ele nesse particular.” Apesar do nome, era um casca fina.
(clique aqui para ler “Um Provinciano Incurável”, de Câmara Cascudo)
Chamem um Historiador! Mesmo que seja para a gente discordar dele (com serenidade), Taboão da Serra precisa, finalmente, ter uma História!
Gildo Zampol não era um simples artesão, embora produzisse também
réplicas. Sua arte não era “modernista”, aquela
que, para entender, precisamos fazer um contorcionismo mental. A estátua
junto à qual está é um São Cristóvão
carregando o Menino Jesus. Forte. Vigorosa. O autor, sem dúvida, era
capaz de “fazer uma pedra sorrir”, qualidade de que poucos podem
se gabar.
José Sudaia Filho