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DONA ANTONIETA GONÇALVES

As ruas de Taboão estavam tomadas pelos carros de som e pelas bandeiras dos candidatos da eleição de 2004 quando Dona Antonieta travou sua última batalha.

A esposa de Waldemar Gonçalves era o seu braço direito e, nos últimos tempos, o seu esquerdo também. Mulher dedicada, construiu com o marido uma família grande, sete filhos, cinco moços, duas moças, hoje já com netos e bisnetos.

Conheci Dona Antonieta quando fazia o livro com o Waldemar. Ela era a memória suplementar do esposo, viveu com ele todas as histórias que foram para o livro. Trabalhou no Instituto Pinheiros, organização onde trabalhou, dentre outras personalidades do “Taboão Antigo”, o nosso primeiro prefeito, Nicola Viviléchio.

Fez ternos com o Waldemar, nos anos em que ele começava sua carreira bem-sucedida de alfaiate. “Eram ternos ‘bordados’ de tanto capricho”, recordava. Esta produção de roupas era famosa, o apresentador Miéle, quando vinha a São Paulo, avisava o Waldemar pelo rádio que vinha apanhar a sua encomenda de ternos.

No serviço de auto-falantes da Igreja de Santa Terezinha, talvez nosso primeiro órgão de comunicação de massa, lá estava Dona Antonieta organizando tudo. Ela me contava, com saudades, suas excursões ao Embu com o Waldemar e os filhos onde participavam de festas folclóricas e tinham muitos amigos como o artista Sacai. Nessa época Taboão e Embu eram realmente cidades-irmãs.

A ajuda aos amigos flagelados das enchentes do Largo do Taboão era tarefa da família. Seo Arthur Félix e Seo João Clemente e seus respectivos familiares eram algumas dessas pessoas que encontravam nos Gonçalves solidariedade e auxílio.

Estimada pelos vizinhos, depois de décadas de residência no alto do Morro do Cristo, Pazini, Dona Antonia deixou entristecidas muitas amigas da rua onde morava. Rua na qual, diga-se de passagem, há muitas árvores que foram plantadas por ela e pelo Waldemar.

Pessoa de grande ligação com a natureza, tinha, além dos cachorros e do papagaio, inúmeras plantas e flores espalhadas pelo quintal. Sabia o nome de cada uma e, como uma legítima fitoterapeuta, para que servia cada planta medicinal, cada chá, cada beberagem. O Waldemar nem precisava consultar o guia de ervas de sua mãe (cuidadosamente guardado) porque sua mulher era sábia nesse assunto.

Era surpreendente ver uma mulher que sempre trabalhou enfrentando as dificuldades de criar uma grande família numa cidade de poucos recursos nos dar opiniões sobre a vida e as pessoas com sobriedade e humanismo. Tinha um sorriso cristalino que lhe iluminava o semblante sério quando recebia uma boa notícia. Mas a testa se franzia quando sabia de algo ruim, sempre preparada para resistir com resignação e coragem aos embates de uma sociedade que pouca consideração tem com as mulheres que se ocupam do sacerdócio que é ser dona-de-casa e mãe de família.

Comigo sempre foi uma pessoa gentil, calma e atenciosa. Creio que o era com todos. Os livros do Waldemar e todas as suas outras obras têm a presença marcante de sua companheira de tantas batalhas. Muitas vezes foi ela que tirou uma dúvida, lembrou de um detalhe, nos ajudou a achar um documento, uma fita gravada, um retalho da história da cidade com as quais, envolvidos com aquela profusão de dados, não conseguíamos atinar.

Quando eu subia o Cristo, a passeio ou a trabalho, passava numa Casa da Pamonha que havia na Praça Nicola Viviléchio e levava um bolo de milho para o lanche. Quando esta loja fechou, era na Panificadora Celeste, no Largo do Taboão, que eu me supria de pãezinhos doces ou de queijo. E, lá na cozinha da sua casa típica da bairro suburbano, conversávamos animados pelo café “passado” na hora ou, nos últimos tempos, por um chá mais ameno mas não menos hospitaleiro. E quando me retirava, o casal Gonçalves me levava até o portão agradecendo (imaginem!) a visita.

Numa segunda-feira ao cair da tarde teve um derrame. Levada para o hospital, teve outro e permaneceu na UTI até que partiu. No velório, todos seus irmãos e cunhados, amigas e vizinhas, filhos, filhas, netos e pessoas que conheço da história de Taboão e nunca esperava encontrar ao vivo. Eram amigos dos Gonçalves e foram levar seu adeus.

Era um dia seco e poeirento, um sete de setembro com um sol ardido e a cidade de São Paulo desfrutava do silêncio de um fim de semana prolongado. Dona Antonieta, semblante sereno agora livre as angústias deste mundo, repousava com as flores do vestido de festa se confundindo com as flores que recobriam o caixão.

Agora são a filhas Giane e a Joelma que cuidam do Waldemar. Quando sai em suas caminhadas pela vizinhança de casa, por certo lhe passam pela cabeça todos os momentos que passaram juntos e o quanto a cidade deve a essas heroínas anônimas que, longe dos holofotes e da política rasteira do dia-a-dia, constroem famílias e dinastias, com uma dignidade bem maior que aquelas que as homenagens rotineiras costumam enaltecer.

Apoiado na energia de uma vida de amor que não silencia com a partida definitiva, o companheiro que ficou segue firme a jornada da vida, origem e destino de nossos sentimentos mais verdadeiros.

José Sudaia Filho