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Música, História, Educação, Opinião

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José André de Moraes, o "Sr. Taboão"
Por José Sudaia Filho
Fotos gentilmente cedidas por Nelson de Moraes, exceto as com fonte assinalada

Integridade. Esta é a melhor palavra para se definir o que transmitia a presença desse nosso grande pioneiro.

Tinha aquele carisma que encontramos em poucos comerciantes, despertava a confiança em torno de si e as pessoas se sentiam tranquilas para fazer negócios com ele. Conheci alguns como ele ao longo da minha vida, homens que honravam o “fio do bigode”, o último deles todos conhecem – José Alencar.


Foto pertencente a Therezinha Hellmeister (filha de dona Luzia) constante do flash “50 anos de história” do site oficial da PMTS (recentemente tirado do ar)

Eu trabalhava na Câmara, naquele primeiro prédio na Rua Getúlio Vargas onde funcionavam Legislativo e Executivo Municipais.

Quando havia alguma efeméride, votações polêmicas ou homenagem, ele vinha à Câmara, subia com facilidade a grande escadaria que levava à Secretaria e à Sala de Sessões. Chegava cedo, não para guardar lugar porque tinha já cadeira cativa na Mesa Diretora dos trabalhos, mas para conversar cordialmente com as pessoas, muitas delas gente que o acompanhou nos trabalhos de parto da cidade.

Era conhecido como Zeca da Venda desde que comprou uma venda na Estrada de Itapecerica, bem atrás de outra venda que também era posto de gasolina e pertencia ao sêo João Batista de Oliveira, sócio de sêo Paulino Nunes, pai de dona Luzia Hellmeister e que tinha a igreja dos Carmelitas do outro lado da rua e lá se estabeleceu.

"Boa noite, moço, o senhor é quem vai secretariar a sessão de hoje?” Perguntava porque éramos apenas dois funcionários na secretaria e nos revezávamos na leitura do expediente, da ata da sessão anterior e dos projetos em tramitação, assessorando assim os trabalhos das sessões..

“Boa noite, sêo Adenir. Como vai passando o senhor seu pai?” Adenir Saporito era o diretor da secretaria da Câmara, cargo correspondente ao do sr. Benedito Comino na Prefeitura. O pai do Adenir, Virgílio Saporito, foi o loteador do bairro que leva seu sobrenome.



Terno de linho claro, pele queimada de sol, mãos calejadas, cabelos penteados à la Clark Gable como era moda na época, sentava-se na confortável e espaçosa poltrona da sala da presidência e, tomando um cafezinho, ficava conversando com os vereadores, Jaime Lobo, Zé Martins, Bernardino Ferreira, José Domingues de Morais Filho (o Zequinha, nosso primeiro vice-prefeito), todos o tratavam com consideração e ouviam atentos quando falava, fosse da lida na chácara, da política da Comarca ou das romarias a Pirapora do Bom Jesus, das quais era o organizador e o presidente (aquele que exerce a liderança e conduz a jornada).



Não era um pioneiro desses que vem, coloniza e vai embora. Sua história pessoal se confunde com a da cidade e, observando sua biografia, temos um contato privilegiado com a gênese de Taboão, não só com datas e nomes, mas com a essência que movia os criadores da cidade.

A origem de nossa cidade é católica. Ao contrário do que se imagina, os seminaristas e os padres carmelitas faziam uma longa caminhada de Pinheiros até aqui, uma espécie de peregrinação para um retiro de férias. Com sua instalação em uma casa espaçosa no local onde hoje fica a indústria Toko (casa da qual não há vestígios), a capela de Santa Terezinha do Menino Jesus se transformou em igreja, tivemos nosso primeiro padre, reverendo João Büscher, as atividades religiosas e comunitárias se desenvolveram e os pioneiros puderam, em torno do templo cristão, gestar o que, em 58, se tornaria a nossa cidade.

A cultura de Taboão, desde que começamos a aparecer como gente nos mapas e nos cartórios, ali pela segunda década dos novecentos, era genuinamente caipira. Caipira de raiz, da modinha de viola, da sanfoninha marcando os passos do lundu, do carro de boi, da religiosidade agrária (com suas grutas, cruzeiros e encruzilhadas, festas da fertilidade, presépios, manjedouras, água benta, milagres de virgens aparecidas), do amor pela natureza e pela terra (quanta gente viva ou já saudosa se orgulha de ter no primeiro documento, o alistamento militar, a profissão de agricultor), da casa de pau-a-pique coberta de sapé, da roupa alinhada, sapato engraxado e família reunida para a missa do domingo, do sermão do vigário martelando a Bíblia nos ouvidos e corações.

-Conheça a história da pitangueira que se transformou em símbolo da cidade

-Conheça a história da estátua do Redentor que os pioneiros colocaram no alto do Morro do Cristo e foi retirada de lá

-Entrevista que o sr. Nelson e sua esposa Raquel concederam ao TOL (vejam nesta mesma página a tira "Pra ver a banda passar" com sêo Zeca; trata-se de uma história em quadrinhos que publiquei na saudosa Gazeta do Taboão; nessa fase os protagonistas tiravam o chapéu para os pioneiros e pessoas comuns muito queridas e que já tinha não estavam entre nós)

-Banda do Maestro Álvaro


E haviam romarias. Descendentes diletas das peregrinações medievais, as romarias eram e ainda são, embora hoje sem ênfase no caminhar com os próprios pés, ou joelhos, viagens devotas a sítios sagrados, santuários ou basílicas para veneração e transformação pessoal (agradecimento por graças alcançadas ou repetição da via-crucis), costume este presente em outras culturas como a peregrinação à Meca, local sagrado para os islâmicos.

Romaria é ir a Roma. A nossa Roma, em 1958, quando o costume aqui se instalou, organizado e dirigido pelo sêo Zeca, era Pirapora do Bom Jesus, cidade situada num vale encravada entre grandes montanhas, a beira do Rio Tietê, bastante poluído hoje em dia. Dista 53 km de São Paulo e está próxima da Rodovia Castello Branco.





O evento era uma festa comunitária. Na linha de frente quatro cavaleiros com estandartes. O de Santa Terezinha cabia a sêo Zeca, que presidia a comitiva. Eram sucedidos por uma ala de cavaleiros, depois uma de charretes e finalmente uma de ciclistas. Partiam às 8 da manhã e chegavam em Pirapora por volta das 17 h.

Os peregrinos a pé partiam às 7 da noite e chegavam ao destino às 7 da manhã porque viajavam à noite (melhor rendimento da caminhada) e pegavam atalhos (que os a cavalo teriam dificuldade em atravessar). Comparativamente, viajavam mais ligeiro que os cavaleiros, mas tinha também que estes faziam muitas paradas pelo caminho.



O trajeto dos cavaleiros era av. Intercontinental, Raposo Tavares (na época asfaltada mas com apenas 2 pistas), Osasco, Quitaúna, Carapicuíba, Barueri, Santana do Parnaíba, chegando então a Pirapora.






A peregrinação era anual, em uma data agendada nas comemorações do Senhor Bom Jesus no mês de junho. Haviam, e ainda há, novenas e missas preparatórias, caminhadas de carros de bois, festas para Nossa Senhora das Dores e a grande procissão com a imagem do Senhor Bom Jesus seguida de missa campal em frente da Matriz de Bom Jesus.



Pernoitavam em hotéis que tinham cocheiras para os cavalos e confortáveis acomodações para a comitiva. A alimentação era comida brasileira autêntica, a começar pela saborosa canja de galinha servida na chegada. E não faltava música nos alojamentos onde sempre havia alguém tocando moda de viola.







Os romeiros tinham seus trajes típicos que consistiam de chapéu, lenço no pescoço, flâmula de Bom Jesus no peito (cada romaria tinha a sua) e botas de montaria. José André, como Romeiro-mor, empunhava o estandarte de Santa Terezinha.

Em Santo Amaro, bairro-irmão quando Taboão era um bairro de São Paulo, preservou suas tradições e os romeiros trajam até hoje bombachas (calças muito largas, cingidas nos tornozelos por botões, próprias para montar) e botinas, estas amarelas, que foram trazidas a Santo Amaro pelos mercenários do Pará na Guerra do Paraguai.



A nossa banda também peregrinava. E levando todos os seus instrumentos, inclusive a tuba que era tocada pelo padre Carlos Spagnol. Nesta foto, a Banda de Taboão na escada da matriz de Pirapora.



Haviam as fotos tiradas pelos fotógrafos de Pirapora, como T. Brito da Photo Bom Jesus, J. Emygdio de Souza da Photo Santa Cruz em sociedade com o primeiro e Fotografia São José, de cujo titular não se tem mais notícia. Além das fotos guarnecidas individualmente em papel de seda devidamente embaladas em capas de percaline, vinham os respectivos negativos que os estúdios Foto Ricordi (R. Quintino Bocaiuva, centro de SP) e Foto Takaya de José Eduardo Takaya (R. Getúlio Vargas, centro de TS) ampliavam e montavam em vistosos álbuns.





Sêo Zeca teve uma época em sua vida na qual usava charrete para viajar em romarias e mesmo para se locomover na própria cidade. Infelizmente foi conduzindo uma delas que faleceu, vítima de um lamentável acidente. O barulho dos freios de uma carreta na rodovia BR 116 em frente à sua casa assustou o cavalo que saiu em disparada. Era 1981 e a era das romarias se encerrou pela ausência de seu mais dedicado incentivador. A ‘era dos caipiras’ também chegava ao fim porque a moderna tecnologia com seus roncos, estalos e estampidos já não podia conviver, sem destruir, com a cultura baseada na terra, nos ritmos naturais, respiratórios, da vida dos pioneiros que construíram, à sua imagem, a Taboão em que queriam viver.

As fotos a seguir são de vezes em que sêo Zeca encarou, de charrete, a jornada devota. A charrete era um veículo do qual ele gostava. Na foto histórica em frente à sua venda no Largo do Taboão que está na cartilha ‘Taboão da Serra Sua História Sua Gente’, ele está elegantemente em uma charrete posando para a posteridade.









Com a partida dramática de José André de Moraes, as Romarias a cavalo e com a tradição religiosa original deixaram de acontecer. Encerrou-se aí uma tradição de mais de duas décadas iniciada pelo próprio sêo Zeca lá pelos anos de 1958, em plena efervecência da emancipação política de Taboão da Serra.

E havia as peregrinações como à Aparecida do Norte, onde a distinção dos trajes demonstra a solenidade de que a viagem se revestia para estes romeiros (notem na foto a seguir).



Nota do Autor 1: Escrever sobre as romarias a Bom Jesus de Pirapora era um antigo projeto, no qual contei com a colaboração e a paciência do sr. Nelson de Moraes, filho daquele que, liderando as peregrinações a Pirapora, abriu os caminhos pelos quais Taboão se tornou cidade sem esquecer a fé e a coragem de seus dedicados pioneiros.

Ao ver sêo Nelson e dona Raquel no auditório do ‘Sr. Brasil’, programa de música sertaneja autêntica e cultura de raiz que Rolando Boldrin apresenta na TV Cultura - SP, tive a certeza de que o ideal dos nossos pioneiros não se perdeu mesmo com o desaparecimento das marcas que deixaram no corpo da cidade. Toda vez que alguém estuda nossa história com cuidado e seriedade e respeito, o ideal de ver o trabalho árduo e bem feito sair vitorioso, como está dito em latim em nossa bandeira, renasce com todo o seu vigor.

Nota do autor 2: Este texto é centrado na figura do sr. José André de Moraes e seus familiares. Mas há outros pioneiros que fizeram parte intregrante desta epopéia devota e que planejo um dia escrever sobre eles: Acácio Ferreira, Rafael Vazami, Cabral (um dos organizadores das corridas de cavalos que aconteciam nos finais de semana na raia livre às margens do Pirajuçara e atrás da Chácara da Metafil), Mimi
(do posto de gasolina da esquina do Largo do Taboão com a R. Getúlio Vargas, onde hoje é uma revenda de carros).

José Sudaia Filho postado em 04/04/2011
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Alma de Romeiro e a origem de nossa bandinha

Sêo Natalino Tedesco era uma dessas pessoas que não precisava de reconhecimento social nem autorização oficial para manter vivas as tradições.

Em 2010 ele foi, de ônibus, sozinho, até Pirapora. Participou da missa do Bom Jesus, das festividades típicas (inclusive desfiles de cavaleiros e carros de bois) que acontecem em toda a cidade e encontrou os amigos de outras cidades, gente que já encontrara muitas e muitas vezes, no decorrer das décadas, desde que eram muito jovens e já muito devotos.
Havia inclusive pessoas que tocavam nas antigas bandas de Itapecerica, Embu etc. com as quais lembrou alegremente os velhos tempos das romarias.

Sêo Natalino sempre curtiu o gênero de música marcial das bandas, os hinos, as marchas e os dobrados, coisa que, penso, não seja segrêdo pra ninguém.

Quando me descreveu esse dia surpreendente, e como um assunto puxa outro, acabou dizendo que encontrara por lá antigos componentes da banda do Embu, e a relação que ela teve com a banda do Taboão.

A história é a seguinte:

Ary Dáu era prefeito e sêo Natalino exaltou com ele a necessidade de termos uma banda, uma vez que a maioria das cidades da região tinha, cada uma, a sua corporação musical. Sêo Ary ouviu sem nada dizer.

Tempos depois, o prefeito o chamou a seu gabinete. Natalino achou que ia receber uma 'bronca' pelo atrevimento de propor a banda. Mas, que nada, era pra comunicar que Sêo Álvaro Manoel de Oliveira havia aceito fundar e reger a Banda Municipal de Taboão da Serra.

Esta é a imagem que Natalino nos deixou, a mim pelo menos - um homem de respeito, de uma visão de mundo sempre animada, fiel às tradições mas capaz de entender as mudanças pelas quais o mundo passou nas sete décadas da vida dele.

Era bom encontrá-lo ali no Largo do Taboão, parar e ficar contando e ouvindo as novidades, constatando o que melhorou ou piorou na cidade. Sempre que o encontrava, estava com a sua bolsa de ferramentas, às vezes carregando uma Makita, máquina pesada que lhe vergava os ombros, sempre trabalhando. E me contava as dificuldades da sua profissão de reformas prediais, as epopéias que vivia todo dia, construindo o conforto das pessoas com dedicação exemplar.

Quando se foi, deixando inconcluso um dia de trabalho, deixou um vazio em nossa história, e a nós que o conhecíamos, aquela grande falta que fazem pessoas humildes, corajosas e trabalhadoras que fazem, apesar das vicissitudes, a roda do progresso se mover.

Na foto a seguir, a Banda Musical de Embu em 1960. Natalino deve ter muitos conhecidos ali. (Fotos Históricas acervo Prefeitura Municipal de Embu, Pedro Saturnino da Silva, e Márcio Amendola)



José Sudaia Filho postado em 04/04/2011
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História de Pirapora



"Tudo começou em 1725, quando pescadores encontraram a imagem do Senhor Bom Jesus apoiada numa pedra às margens do Rio Tietê. Logo após ter sido encontrada, a imagem foi colocada num paiol de milho, local onde aconteceu o primeiro milagre. O paiol pegou fogo e foi destruído, sendo que apenas o milho e a imagem - entalhada em madeira - não foram atingidos pelas chamas. Após o ocorrido, a imagem ganhou um altar doméstico onde permaneceu por pouco tempo, já que deveria ser levada para Santana de Parnaíba, pois Pirapora era apenas uma sesmaria pertencente ao distrito parnaibano. No caminho aconteceu o segundo milagre. No quilômetro 47 da Estrada dos Romeiros, o carro de boi que levava a imagem parou, impedindo a continuação do percurso, momento em que surgiu homem surdo e mudo, que gesticulando, informava que a imagem não mais deveria continuar, a imagem deveria voltar para Pirapora, lugar onde o Senhor Bom Jesus queria ficar. Para tanto, em 1927 foi construída a primeira capela ao padroeiro da cidade." (site da Prefeitura de Pirapora do Bom Jesus)


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As romarias santamarenses

Os santamarenses, de tradições mais antigas do que as nossas, já faziam romarias ao Bom Jesus a cavalo ou a pé, antes mesmo de lá ser construída a primeira capela. Cristina R. Durán, em publicação da ACSP, "Santo Amaro" (2003, p.74) nos conta que "Embora atualmente mais modesta e menos glamurosa, ela [romaria] se repete todos os anos, desde 1920, no último fim de semana de maio. Os romeiros, conhecidos como ‘botinas amarelas’, vestidos a carater, alguns montados a cavalo (antigamente iam instalados em carroças), outros a pé, saem do Largo Treze de Maio em direção a Piraporinha - um trajeto de 70 quilômetros”.




JSF postado em 04/04/2011



Arthur Félix, o cego que enxergava longe, partiu

 

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